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<title>SD — Sérgio Duh</title><link>https://sergioduh.com/</link><description>Estúdio de pensamento criativo para pessoas, marcas e negócios que precisam fazer sentido antes de aparecer.</description><language>pt-BR</language><lastBuildDate>Wed, 14 Oct 2026 16:26:21 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://sergioduh.com/rss.xml" rel="self" type="application/rss+xml"/>
<item><title>Tem uma casa dentro da casa.</title><link>https://sergioduh.com/blog/casa-dentro-da-casa/</link><guid isPermaLink="true">https://sergioduh.com/blog/casa-dentro-da-casa/</guid><pubDate>Wed, 14 Oct 2026 16:26:21 GMT</pubDate><dc:creator>Sérgio Duh</dc:creator><category>Narrativa</category><category>narrativa</category><category>storytelling</category><category>posicionamento</category><description>Casa é também o que a vida chama de casa. A planta organiza as áreas; a rotina cria outros nomes, caminhos e tamanhos.</description><media:thumbnail url="https://sergioduh.com/img/2026-s43-capa-casa-dentro-da-casa-e0bda968-1600-e0bda968.webp"/><content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://sergioduh.com/img/2026-s43-capa-casa-dentro-da-casa-e0bda968-1600-e0bda968.webp" alt="Título preto sobre fundo magenta acima de uma fotografia de porta aberta iluminando um ambiente escuro."></p><p>Casa é também o que a vida chama de casa. A planta organiza as áreas; a rotina cria outros nomes, caminhos e tamanhos.</p>
<p>A planta chama de corredor. Você chama de caminho até o quarto da sua mãe. As medidas podem estar perfeitamente certas nas duas versões. Só estão falando de coisas diferentes.</p>
<p>Existe a cadeira em que ninguém se senta. A marca mais clara de um quadro que saiu da parede. O barulho que avisa quem acabou de chegar. Pequenos sinais que um levantamento técnico pode deixar de fora e que, para quem mora, organizam o lugar inteiro.</p>
<p>Trabalho com marcas ligadas ao morar. Interessa-me essa passagem entre descrever um imóvel e conseguir falar da vida que pode acontecer nele. O texto perde presença quando trata todas as casas como variações do mesmo conjunto de adjetivos. Confortável, exclusivo, completo. Ainda não sabemos quase nada sobre a experiência.</p>
<p><img src="https://sergioduh.com/img/2026-s43-casa-dentro-da-casa-interna-01-9666876a-1280-9666876a.webp" width="1536" height="1024" alt="Corredor estreito de uma casa antiga." loading="lazy" decoding="async"></p>
<p><em>Imagem criada para este ensaio.</em></p>
<h3 id="o-que-a-planta-nao-nomeia">O que a planta não nomeia</h3>
<p>Uma narrativa mais precisa começa pela observação. Como a luz atravessa o ambiente? Onde duas pessoas acabam se encontrando? O que permite ficar sozinho? Qual parte da rotina se torna mais simples? São perguntas que aproximam o discurso do espaço real, sem precisar inventar uma felicidade pronta para seus futuros moradores.</p>
<p>Memória também pede cuidado. A minha cozinha de infância não pode ser oferecida como lembrança de todo mundo. Uma boa história abre lugar para diferentes experiências. Ela apresenta possibilidades concretas e deixa quem lê reconhecer, imaginar ou discordar.</p>
<p>Imagine duas pessoas visitando o mesmo apartamento. Uma repara no lugar onde pode trabalhar sem interromper a casa. A outra procura uma passagem confortável para ajudar alguém com mobilidade reduzida. O imóvel não mudou entre as visitas. O que cada pessoa precisa reconhecer é diferente. Falar de morar exige atenção a essas diferenças, inclusive quando uma característica não atende a todas elas.</p>
<p>É por isso que vale testar os adjetivos diante de uma situação. Se o texto diz “integrado”, o que está conectado e de que maneira? Se diz “acolhedor”, quais condições observáveis sustentam essa impressão? Uma janela, uma circulação ou um espaço de encontro podem oferecer elementos para a conversa. O adjetivo fica mais preciso quando encontra uma cena que o leitor consegue imaginar e conferir.</p>
<p><img src="https://sergioduh.com/img/2026-s43-casa-dentro-da-casa-interna-02-0a46edc4-1280-0a46edc4.webp" width="1536" height="1024" alt="Marca mais clara de um quadro retirado da parede." loading="lazy" decoding="async"></p>
<p><em>Imagem criada para este ensaio.</em></p>
<h3 id="narrativa-do-morar">Narrativa do morar</h3>
<p>Também há silêncios importantes. Uma fotografia pode mostrar um ambiente impecável e apagar os usos que dão escala à vida. Um texto pode preencher cada espaço com uma família idealizada, como se o imóvel viesse acompanhado de um único destino. Abrir lugar para outras rotinas exige escolher o que mostrar sem determinar por completo quem deveria viver ali.</p>
<p>Um exercício possível é descrever um cômodo sem usar seu nome. Conte como alguém atravessa o espaço, onde deixa um objeto, em que hora a luz muda. Depois compare essa descrição com a planta. O encontro pode revelar uma qualidade concreta ou uma promessa que precisava ser revista. A observação melhora a história e pode apontar perguntas para o próprio projeto.</p>
<p>As imagens desta matéria foram criadas para o ensaio. O corredor e a marca de um quadro funcionam como convites para pensar; não documentam um empreendimento nem a memória de uma família real. Quando o assunto for um projeto específico, a narrativa precisa voltar aos seus registros e às pessoas envolvidas. Essa passagem mantém a liberdade de imaginar perto da responsabilidade de dizer o que existe.</p>
<p>Há uma casa construída por paredes. E há outra, reorganizada por hábitos, relações e tempo. Quando penso a narrativa de um lugar, procuro o encontro entre elas. Qual parte da sua casa não aparece na planta?</p>
]]></content:encoded></item>
<item><title>Quem conta muda tudo.</title><link>https://sergioduh.com/blog/quem-conta/</link><guid isPermaLink="true">https://sergioduh.com/blog/quem-conta/</guid><pubDate>Wed, 14 Oct 2026 16:26:21 GMT</pubDate><dc:creator>Sérgio Duh</dc:creator><category>Narrativa</category><category>narrativa</category><category>storytelling</category><category>posicionamento</category><description>Quem conta escolhe o lugar da história. Uma porta se fecha; a experiência muda conforme o lado de onde olhamos.</description><media:thumbnail url="https://sergioduh.com/img/2026-s43-capa-quem-conta-401cd5c4-1600-401cd5c4.webp"/><content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://sergioduh.com/img/2026-s43-capa-quem-conta-401cd5c4-1600-401cd5c4.webp" alt="Composição tipográfica sobre fundo preto com a palavra muda em azul e as demais em branco."></p><p>Quem conta escolhe o lugar da história. Uma porta se fecha; a experiência muda conforme o lado de onde olhamos.</p>
<p>Vamos inventar uma cena curta. Um homem fecha uma porta. Não sabemos seu nome, o endereço ou a hora. Temos apenas um gesto suficientemente simples para caber numa linha.</p>
<p>Do lado de dentro, alguém finalmente encontra silêncio. Do lado de fora, alguém acaba de receber outra recusa. As duas leituras podem nascer do mesmo acontecimento. O lugar de quem conta distribui informações, proximidade e até o tempo que aceitamos esperar por uma resposta.</p>
<p>Construir uma narrativa envolve essa escolha. Quando seguimos um personagem por um corredor, carregamos o que ele sabe. Quando a câmera fica do outro lado da porta, podemos saber menos. Ou muito mais. Essa diferença participa da tensão da cena.</p>
<p><img src="https://sergioduh.com/img/2026-s43-quem-conta-interna-01-ad59e554-1280-ad59e554.webp" width="1536" height="1024" alt="Porta de madeira fechada vista de um corredor." loading="lazy" decoding="async"></p>
<p><em>Imagem criada para este ensaio.</em></p>
<h3 id="o-lugar-de-fala-da-marca">O lugar de fala da marca</h3>
<p>Uma marca também escolhe um lugar de fala ao organizar sua história. Pode olhar um bairro pelo mapa de acesso, pela rotina de quem sai cedo ou pela lembrança de quem cresceu ali. Cada caminho ilumina uma parte da experiência e deixa outra em segundo plano. É preciso perceber o que essa escolha produz.</p>
<p>Por isso, antes de acertar o tom de uma apresentação, vale trocar de posição. Recontar a mesma situação pelo ponto de vista de quem chega, de quem espera e de quem nunca foi chamado pode mostrar ausências que o texto original escondia sem querer.</p>
<p>Vamos demorar mais um pouco nessa porta inventada. Quem ficou no corredor ouviu uma conversa inteira ou apenas a última frase? Quem está dentro sabe que há alguém esperando? Uma mudança nessa distribuição de informação altera o que o leitor pode concluir. O narrador não escolhe apenas palavras: escolhe a distância entre o acontecimento e quem acompanha a história.</p>
<p>Na apresentação de um projeto, essa distância aparece com frequência. A equipe já conhece as decisões, os testes e as restrições. Quem recebe a apresentação pode estar vendo tudo pela primeira vez. Se o texto começa pela conclusão, talvez falte o caminho que torna aquela conclusão compreensível. Recuperar uma pergunta anterior pode ser mais útil do que acrescentar entusiasmo à resposta.</p>
<p><img src="https://sergioduh.com/img/2026-s43-quem-conta-interna-02-8bc20930-1280-8bc20930.webp" width="1536" height="1024" alt="Sombra de uma janela projetada sobre uma parede." loading="lazy" decoding="async"></p>
<p><em>Imagem criada para este ensaio.</em></p>
<h3 id="trocar-de-posicao">Trocar de posição</h3>
<p>Trocar de posição ajuda a encontrar esse trecho ausente. Imagine alguém tentando usar um serviço num dia comum. O que essa pessoa precisa saber primeiro? Onde hesita? Que informação parece óbvia para quem criou o serviço e estranha para quem chegou agora? Essas perguntas orientam uma investigação. As respostas precisam vir da experiência observada ou de uma conversa real, quando o trabalho pede conhecimento sobre outras pessoas.</p>
<p>Há um cuidado especial com a tentação de falar por todo mundo. Escrever uma cena pelo ponto de vista de um morador imaginário é um exercício de criação. Apresentá-la como depoimento de um morador seria outra coisa. A narrativa precisa deixar clara essa diferença. Ficção permite experimentar possibilidades; escuta e pesquisa ajudam a conhecer experiências que não são nossas.</p>
<p>Antes de fechar um texto, experimente marcar as frases que só fazem sentido para quem já sabe do assunto. Depois, escolha uma delas e reconstrua o caminho de chegada. Você não precisa explicar tudo. Precisa decidir o que o leitor deve conseguir acompanhar. A porta permanece fechada no fim da cena, mas a distância entre as pessoas já pode ser percebida com mais precisão.</p>
<p>O enquadramento tem bordas. Essa é uma condição do trabalho, e também uma responsabilidade. Saber quem ficou fora ajuda a decidir se precisamos ampliar a cena, mudar o narrador ou reconhecer o limite da história que estamos contando.</p>
]]></content:encoded></item>
<item><title>A mesma cadeira. Outra história.</title><link>https://sergioduh.com/blog/a-mesma-cadeira/</link><guid isPermaLink="true">https://sergioduh.com/blog/a-mesma-cadeira/</guid><pubDate>Wed, 14 Oct 2026 16:26:21 GMT</pubDate><dc:creator>Sérgio Duh</dc:creator><category>Narrativa</category><category>narrativa</category><category>storytelling</category><category>posicionamento</category><description>O objeto fica. O contexto trabalha. Um pequeno exercício sobre o que acontece ao redor da imagem.</description><media:thumbnail url="https://sergioduh.com/img/2026-s43-capa-a-mesma-cadeira-615fb3a1-1600-615fb3a1.webp"/><content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://sergioduh.com/img/2026-s43-capa-a-mesma-cadeira-615fb3a1-1600-615fb3a1.webp" alt="Cadeira branca de plástico em fotografia sobre fundo claro, ao lado do título em letras pretas."></p><p>Imagine uma cadeira de plástico. Dessas que não precisam ser apresentadas. Na calçada, ela parece esperar uma conversa. Dentro de uma sala vazia, pode esperar uma pessoa. Cercada por uma fita de isolamento, pede uma investigação. Sobre um pedestal, pede que alguém explique por que aquilo merece estar ali.</p>
<p>A cadeira não fez absolutamente nada. Não ganhou uma característica nova, não melhorou de material, não desenvolveu personalidade durante a madrugada. Ainda assim, nossa disposição diante dela mudou. Em cada situação, chegamos carregando uma pergunta diferente.</p>
<p>É nesse espaço ao redor do objeto que gosto de trabalhar. O que aconteceu antes? Quem nos trouxe até aqui? Quem pode se sentar? Quem está olhando? A narrativa começa a se formar nessas relações, antes de existir uma frase especialmente bonita para acompanhá-las.</p>
<p><img src="https://sergioduh.com/img/2026-s43-a-mesma-cadeira-interna-01-9895f621-1280-9895f621.webp" width="1536" height="1024" alt="Calçada residencial vazia ao anoitecer." loading="lazy" decoding="async"></p>
<p><em>Imagem criada para este ensaio.</em></p>
<h3 id="o-contexto-na-construcao-da-marca">O contexto na construção da marca</h3>
<p>No trabalho com uma marca, isso aparece quando uma boa imagem continua sem conseguir dizer o que precisa. Talvez falte contexto. Talvez tenhamos escolhido a cena certa e o ponto de entrada errado. Uma sala vazia pode sugerir disponibilidade, abandono ou liberdade. O enquadramento sozinho não resolve tudo: o que veio antes prepara a leitura.</p>
<p>Um exercício simples: mantenha uma imagem e escreva três acontecimentos que poderiam ter ocorrido um minuto antes dela. Depois, volte a olhar. A fotografia permanece exatamente igual. A atenção já começa a procurar coisas diferentes.</p>
<p>Para experimentar isso sem sair da mesa, imagine três pequenas legendas para a mesma cadeira: “ela guardou um lugar”, “ninguém voltou para buscar” e “a visita chega às quatro”. A primeira coloca uma relação em cena. A segunda deixa uma ausência. A terceira abre uma espera. Cada frase cria uma companhia para o objeto, mesmo sem acrescentar outra pessoa à fotografia.</p>
<p>Agora retire as legendas e observe o espaço. A cadeira está voltada para uma porta ou para a rua? Existe outra cadeira por perto? Há sinais de uso no chão? O exercício começa com uma invenção declarada, mas a escolha de uma imagem para um trabalho real precisa voltar ao que pode ser visto e confirmado. Um detalhe não prova sozinho a história que queremos contar.</p>
<p><img src="https://sergioduh.com/img/2026-s43-a-mesma-cadeira-interna-02-7de534c0-1280-7de534c0.webp" width="1536" height="1024" alt="Pedestal vazio iluminado em uma sala escura de exposição." loading="lazy" decoding="async"></p>
<p><em>Imagem criada para este ensaio.</em></p>
<h3 id="escolher-a-pergunta-da-imagem">Escolher a pergunta da imagem</h3>
<p>Isso importa quando selecionamos fotografias para apresentar um serviço. Uma sala bonita pode chamar a atenção e ainda deixar sem resposta o que acontece ali. Mostrar uma situação de uso, uma escala ou uma relação entre pessoas e espaço pode ajudar. A escolha depende da pergunta do leitor. Quem procura entender um processo precisa de pistas diferentes de quem já conhece o processo e quer avaliar uma entrega.</p>
<p>O contexto aparece também na sequência. Uma cadeira mostrada depois de um ambiente cheio pode sugerir o fim de uma reunião. Mostrada antes, talvez prepare a chegada de alguém. Ao montar um carrossel, a imagem anterior continua trabalhando dentro da seguinte. Por isso, vale revisar o conjunto, além de aprovar cada tela isoladamente. A narrativa passa pelos intervalos.</p>
<p>Um modo prático de revisar é perguntar a alguém o que imagina ter acontecido. Ouvir essa leitura não serve para exigir uma interpretação única. Serve para perceber se oferecemos as pistas de que o assunto precisava. Quando todas as respostas dependem de uma explicação que ficou fora do material, talvez o contexto ainda esteja incompleto. A próxima edição da peça pode começar por esse ajuste, sem precisar trocar tudo.</p>
<p>Antes de escolher uma imagem, portanto, gosto de escolher a pergunta que ela deixa. A cadeira continua ali, sem qualquer colaboração. Agora você sentaria?</p>
]]></content:encoded></item>
<item><title>Ponto de vista</title><link>https://sergioduh.com/blog/ponto-de-vista/</link><guid isPermaLink="true">https://sergioduh.com/blog/ponto-de-vista/</guid><pubDate>Wed, 14 Oct 2026 16:26:20 GMT</pubDate><dc:creator>Sérgio Duh</dc:creator><category>Narrativa</category><category>narrativa</category><category>storytelling</category><category>posicionamento</category><description>Ponto de vista: o lugar de onde olhamos participa da história que conseguimos contar.</description><media:thumbnail url="https://sergioduh.com/img/2026-s43-capa-ponto-de-vista-1c115435-1600-1c115435.webp"/><content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://sergioduh.com/img/2026-s43-capa-ponto-de-vista-1c115435-1600-1c115435.webp" alt="Marca D tridimensional azul, com cavidades e estrutura metálica, sobre fundo cinza."></p><p>Ponto de vista: o lugar de onde olhamos participa da história que conseguimos contar.</p>
<p>Uma cadeira, uma porta, uma casa. Três coisas aparentemente resolvidas, até alguém mudar o lugar de onde olha. A primeira edição da revista começa aí. Antes de escolher uma frase, vale perceber quem chegou à cena, o que essa pessoa já sabe e o que está procurando. Uma imagem pode estar inteira diante de nós e, ainda assim, oferecer histórias muito diferentes.</p>
<p>Imagine uma fotografia de uma mesa posta para duas pessoas. Os pratos estão vazios. Há um copo com água e outro ainda seco. Se a legenda disser que alguém se atrasou, começamos a contar os minutos. Se disser que alguém acaba de ir embora, procuramos sinais de interrupção. Se não houver legenda, talvez o interesse esteja justamente em sustentar a dúvida. A fotografia continua igual. A entrada na história mudou.</p>
<p>Esse pequeno exercício ajuda a pensar o trabalho de construir narrativa. Escolher uma entrada significa organizar a atenção. Um detalhe pode ganhar importância porque apareceu primeiro; uma informação pode perder força porque chegou antes de existir uma pergunta para ela. O cuidado está em perceber o efeito dessas escolhas, sem atribuir à linguagem o poder de transformar qualquer coisa em qualquer outra.</p>
<h3 id="o-lugar-de-quem-escuta">O lugar de quem escuta</h3>
<p>Quando uma marca começa a falar, ela também oferece um lugar para quem escuta. Pode pedir admiração, convidar para observar uma situação ou apresentar um problema que a pessoa reconhece. Cada posição estabelece uma relação. Uma apresentação que começa por uma lista de qualidades exige confiança antes de mostrar por que aquela conversa importa. Uma cena concreta permite que o leitor encontre alguma coisa por conta própria.</p>
<p>Pense numa cozinha apresentada apenas por suas medidas. Depois, imagine a mesma cozinha descrita pelo trajeto entre guardar a compra, lavar os alimentos e preparar o jantar. As medidas seguem necessárias. A rotina acrescenta uma pergunta sobre o uso. É preciso conhecer o espaço para fazer essa passagem com honestidade. Se a bancada atrapalha o percurso, nenhuma frase sobre praticidade deveria esconder isso.</p>
<p>O ponto de vista também tem limite. Quem conta não vive todas as experiências e não conhece todas as respostas. Reconhecer esse limite melhora a precisão. Em vez de afirmar que uma casa realiza o sonho de qualquer pessoa, podemos observar o que ela oferece, em quais condições e para quem aquilo pode fazer sentido. A história ganha um chão onde o leitor consegue pisar, testar e discordar.</p>
<p>Nesta semana, vamos fazer três deslocamentos. Uma cadeira muda de contexto e deixa de parecer tão óbvia. Uma porta separa duas versões do mesmo acontecimento. Uma casa revela espaços que a planta não nomeia. São cenas pequenas para investigar decisões que aparecem no trabalho com marcas, lugares, imagens e textos. O interesse está no que cada escolha torna visível.</p>
<h3 id="um-exercicio-para-olhar-de-novo">Um exercício para olhar de novo</h3>
<p>Você pode acompanhar com um exercício: escolha uma imagem do seu trabalho e escreva o que aconteceu um minuto antes. Depois, refaça a cena pelo olhar de outra pessoa. Compare as perguntas que surgiram, sem procurar imediatamente a versão mais bonita. Talvez uma delas revele o assunto que ainda estava faltando. É desse ponto que esta edição parte. O objeto já estava ali. Agora temos uma razão para olhar de novo.</p>
]]></content:encoded></item>
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